Conversas diante do espelho

Quinta-feira, Março 16, 2006

Escala de valores

Estes dias, nos Estados espanhol e francês, podemos botar uma olhada para nos perceber das profundas diferenças que existem neste momento nas respectivas juventudes/mocidades de ambas sociedades. Embora o carácter plurinacional do Estado espanhol seja mais reconhecido do que essa realidade no território vizinho, o colonialismo ao que estám submetidas as nações do Estado da península faz com que comecem a surgir certas correntes de nom-pensamento comuns aos habitantes destas. Enquanto o estudantado de la France sai à rua para protestar por uma reforma que precariza ainda mais o já doente âmbito laboral, no Estado espanhol a maior preocupaçom das suas gentes é a possível proibiçom da posta em prática do chamado botelhom ou garrafom.

Esta prática, comum a todo o território do Estado -e, para os que nom o souberem, consistente em beber na rua álcool comprado nos supermercados, mais barato-, surge directamente polo abusivo preço que foi adoptando a bebida nos locais de ócio, quer discotecas, quer pubs. A saída perante esta realidade foi optar por evitar estes locais nos momentos de esmorga alcoólica. E qual o lugar onde poder reunir-se para beber sem limites de aforo? A rua.

Até cá seria tudo normal, incluso sabêndomos que as reuniões, quando houver álcool, sempre trazem consigo um volume das conversas excessivo. Isto seria solucionável fazendo as reuniões em zonas de pouca populaçom, como parques ou praças públicas. Os problemas graves aparecem quando a falta de civismo faz com a gente depositar resíduos orgânicos no meio da rua, além doutros inorgânicos: garrafas e copos rotos, destroços no mobiliário urbano -sem ânimo reivindicativo nenhum (oxalá)-, ...

Esta realidade provoca-me risos, se nom prantos, quando olho a situaçom dos curmãos de além-Pirenéus. Eles sim que soubêrom demonstrar que têm interesse polo seu futuro. O estado de parálise cerebral no que se topam as minhas gentes é para chorar. Um estado no que rejeitam abertamente a política por considerarem que nom afecta às suas vidas em nada, quando é precisamente o contrário: uma decisom dum político pode dizer se amanhã comerás; um estado no que o único que querem é desconectar da realidade, esquecer a merda de vida que têm ou botar uma soneca permanente por estar numa situaçom acomodada; um estado no que nom mostram interesse por cambiar as injustiças existentes e palpáveis da vida quotidiana, quer da sua, quer da doutras pessoas...

A merda da classe política que temos faz com que já nom protestemos nunca. Podem estar a nos roubar o pam diante do nariz e nós sem fazermos rem, em rotundo e absoluto silêncio, ficando sem nada.

Hoje, os galegos nom podemos fazer um contrato de arrendamento na nossa língua se o arrendatário nom o desejar. Hoje, um galego tem de saber castelhano/castelám por lei (embora, sendo incluso filho de galegofalantes, nom é assim com a língua dos seus pais). Hoje, os galegos temos de emigrar porque na nossa terra nom há trabalho para nós. A indústria tecnológica do nosso país é própria de uma subdesenvolvida. A riqueza que a nossa terra tem está em mãos de dous ou três empresários que nom sentem absolutamente nada polo seu país, que som filhos ou netos dos opressores franquistas, alguns deles sendo eles próprios os opressores, impunes por um Estado que nom condenou nenhum dos delitos dessa triste história. As gigantescas empresas, frutos ou criadores da mal chamada globalizaçom, utilizam a Galiza como uma colónia, explorando-a e sem devolver nada à terra que as enriquece.

Que fazemos perante estes problemas? Nada. Ligamos o televisor para vermos um reality desses que estám tam à moda, para sabermos da vida de pessoas que nunca conheceremos e que nos importam um caralho de mico, para nos evadir da merda que é a nossa existência, chegândomos a esquecer e a negar as complicações que se nos apresentam. A filosofia do panem et circenses que tam bons resultados deu em épocas como a franquista nalgumas mentes, hoje semelha funcionar à perfeiçom.

Da Crunha, cidade na que ninguém é forasteiro, soubem há tempo que houvera mais participantes na manifestaçom pró-Crunha capital dos que mais tarde nas de Nunca Mais. Porquê? A razom está em que se vê mais necessária que a cidade tenha o prestígio e a importância de figurar como capital da Galiza do que conseguirem soluções para os problemas derivados da maré negra. Volto a perguntar: porquê? Acho -embora neste caso já nom esteja tam certo- que a classe política crunhesa tem mais interesse em desviar a atençom das suas gentes a temas menos subversivos, conflituosos se se quiger. E esse é o método que se segue no Estado todo: desviar a atençom, guiar o rebanho de ovelhinhas que somos para eles, que tomárom o rol de pastores. Pois eu digo: nom sou uma ovelha. Nom sou alguém a quem podam dirigir sem mais, a quem podam dizer o que tem de pensar, o que tem de sentir. As pessoas somos seres individuais.

As nações criadas baseando-se em antigos reinos som um erro. Esses antigos principados, condados, ducados, ... eram caprichos ou interesses particulares de nobres da época, de gentes privilegiadas. O próprio Portugal, estado dos nossos irmãos do Sul, foi criado num princípio como agasalho de boda. As nações de hoje nom podem basear-se nessas de antanho. Devem refundar-se. Entom terám senso entidades sem Estado, como a Galiza, Astúries, Leom, Euskal Herria, Andaluzia, os Países Catalães, Aragom, Canárias, Castela, Provença, Bretanha, Escócia, Gales, Quebeque... e tantas outras. Por isso nações existentes hoje com Estado de seu, quer Portugal, quer Venezuela, Chile, Cuba, Brasil e demais, nom devem apelar a uma naçom do passado para se fundamentar hoje. Devem chegar ao coraçom falando de cousas reais, de direitos e deveres, de irmandade, de consciência colectiva, de projecto comum, de igualdade real. Os privilegiados devem desaparecer.

Os meios de comunicaçom nom podem estar controlados polo capital, como hoje ocorre. Devem ser do povo, por e para ele. É vergonhoso os periódicos de informaçom geral darem como notícia principal a celebraçom dum macrogarrafom em tal ou qual cidade, enquanto os estudantes do Estado francês som notícia em apenas uma mísera coluna duma secçom menor. Querem aparvoar-nos, querem-nos fazer crer que essa é a verdadeira realidade. É a mesma situaçom na que a notícia que enche os meios é um assassinato, violaçom ou catástrofe natural. Dam sensaçom de insegurança a quem ler essa notícia, porque acaba por crer que o mundo, o seu mundo, está cheio de criminais, de inimigos, de lobos. Dá em pensar que a própria natureza está na nossa contra. Quando nom forem notícias desse estilo, som verdadeiros vómitos informativos -porque som um desperdício- sobre as famílias reais da velha Europa (as mesmas que supõem o máximo expoente de parasitas existentes actualmente). Incluso, por vezes, temos de suportar capas inteiras dedicadas a personagens da vida “pública” que contam intimidades fazendo gala dum exibicionismo atroz e repulsivo.

A gente afaz-se a este tipo de notícias e depois nom tem costume de ler as que realmente vam afectar a sua vida. Passa a sua existência a viver o tempo de outros, por vezes imitando-os, como uma espécie de macabro videojogo da vida.

A nossa escala de valores é continuamente deformada por estes meios desinformadores, verdadeiros moldadores do pensamento colectivo. O aspecto, a popularidade, o poder aquisitivo, rebelar-se sem causa (no sentido de alguém sentir que é mais por nom cumprir com as suas obrigas na escola...), som cousas que hoje valem muito na mente das pessoas da nossa sociedade.

Como conta o filme La haine (O ódio), a nossa sociedade vive o conto daquele que está a cair desde o último andar dum edifício ao chão. Cada andar que passa a cair, diz-se: Tudo vai bem. Tudo vai bem. O problema é que o importante nom é a caída, mas a aterragem. E a nossa vai ser bem fodida.

Segunda-feira, Agosto 01, 2005

Ira

Curioso nome para uma organizaçom terrorista: IRA (Irish Republican Army). Cousas dos idiomas. Ainda que, bem pensado, acaso foi esse sentimento o que levou a seres humanos a pensar em matarem outros seres humanos. Veriam-se engaiolados, num caminho sem saída? Pode ser. Ou pode que a sociedade, dependendo do momento, aceitar ou nom a violência como médio para acadar algo. Na Segunda Guerra Mundial, quando foi fundado o IRA, a violência ainda era aceitada pola sociedade. Permitirei-me pôr em dúvida que as sociedades de hoje rejeitem a violência, polo menos em geral. Acaso algumas. E nom precissamente das mais ocidentais.

Hoje a violência é rejeitada -na teoria- pola maior parte da nossa sociedade. Por isso, o IRA finalmente decidiu anunciar o desarme definitivo do grupo, passando a se converter numa força política. Bem feito, naturalmente. Hoje os governos nom escuitam aos grupos armados -alguns nem aos desarmados, olhai a Galiza-. Possivelmente, o Tony Blair fizo uma apertura na posiçom oficial do Reino Unido com respeito ao caso do Ulster. Dixo que o destino da Irlanda será decidido polos irlandeses, o que significa um possível referendo. Pode que acadaram os seus sonhos. Finalmente. Uma Irlanda unida.

Pensemos um momento as vidas que isso costou. Ponhamos numa balança os mortos ocasionados e o controlo e exploraçom da Irlanda polo Reino Unido. O que valeu mais? A vida de uns ou o futuro de outros?

O caso do Éire, ainda que alguns pretender misturar ambos casos, nom é como o da ETA na Espanha. A posiçom do governo inglês e da oposiçom é a mesma nesse tema. Porém, na Espanha, os dous principais partidos utilizam o terrorismo com fins electoralistas. Nom interessa que remate o conflito em Euzkadi, porque isso significaria perder o medo, e isso levaria a deixar de votar os partidos que falam do medo e do terror. Aliás, naturalmente, dos negócios que já fazem parte do mundo quotidiano dessa terra, como som os guarda costas. Ninguém imagina hoje um Euzkadi sem guarda costas, sem o dinheiro que gera. E claro, o que importa neste mundo nom som os demais, e um próprio e o seu dinheiro.

Alguém quer solucionar no estado espanhol a questom da independência das nações históricas? No Reino Unido tém claro desde há tempo que o que tém é um estado. O Reino Unido, como estado, engloba -na ilha da Grã Bretanha- os ingleses, escoceses e galeses e, no Ulster, os irlandeses, mas som cousas distintas. Povos distintos. Como tém claro isso, acaso a decisom tomada polo Blair foi mais singela. Em Espanha, muitíssima gente pensa, e a postura oficial é, que há apenas uma naçom, um povo, uma cultura -e, por todas estas, uma língua: a deles-... Quando surge um sentimento independentista por alguém se identificar com uma das nações históricas, esse nacionalismo espanholista sem fundamento põe-se em acçom. Alguns nem justificam a sua postura (Ibarra), outros falam de luitar contra o separatismo (Rajoy) e outros usam o seu talante, mas todos dizem o mesmo. La cosa nostra nom se move. Está assim desde há quinhentos anos e nom vam vir estes roxos do caralho que nom se lavam dizer-nos como é Espanha. E produz-se uma situaçom de imobilismo. Como alguns podem observar, isto nom leva a ningures.

Ogalhá o caso IRA e o ETA se parecessem mais...

Segunda-feira, Julho 11, 2005

Informação

Mais uma bomba estoupou num dos países ocidentais. Desta vez tocou o turno da Inglaterra. O medo invade os corações dos cidadãos todos, os de dentro e os de fora. Os mussulmanos atacam. Ninguém fica seguro. A solução está em fortalecermos as políticas anti-terroristas, recurtarmos direitos, controlar mais... Realmente alguém crê que com isso vão solucionar algo?

Os ataques estão provocados precissamente para nos tirar liberdade, para diminuir os nossos direitos. Alguém crê ainda que pudesse ser o Bin Laden quem coordinou os ataques às torres gémeas? Creio lembrar que tinha problemas renais... Tem de ficar conectado o dia inteiro a uma máquina. Ainda assim pretendem que acreditemos num afgão ligado a uma máquina trotando de cova em cova do Afeganistão à Arábia Saudi? São várias as teorias sobre uma possível coordinação entre acontecimentos e declarações institucionais para nos fazer crer o que não é. Necessitamos ter um inimigo. Necessitamos que seja distinto a nós. Já que os mussulmanos adoitam ser de pele moura, colhamo-los como inimigos!! Quem melhor? Não olhastes essas fotos tão sinistras de supostos terroristas do integrismo islámico? Que medo!! Esses olhos mouros, distintos dos nossos olhos claros. Essa pele escura... Os inimigos perfeitos!! Especialmente em sociedades como a ianque e a inglesa, onde os prejuizos raciais ainda não morrerom.

Estes terroristas, cujo fim real não acadamos entender, não apenas prejudicam a população matando gente mas, aos que ficarem vivos, provoca uma caída de direitos, até o de agora considerados indispensáveis e inqüestionáveis. O Grande Irmão está a criar o seu espaço, primeiro com informação filtrada. Mais tarde, totalmente censurada. Chegará o dia no que não poderemos saber o que é o que acontecer diante de nós, porque os média mentirão de uma forma tão descarada, e nós estaremos tão lobotomizados, que creremos mais o que dizem eles do que os nossos olhos.

"Liberdade é a liberdade de poder dizer: um e um são dous"

Sexta-feira, Junho 10, 2005

Pura hipocrisia

Pode que o título do blogue seja mais premonitório do que outra cousa, mas às vezes topo-me a pensar se serei o único que pensa de determinado jeito, ou se os outros acadarom o objectivo de nos fazerem pensar que estamos sós.

Refiro-me ao que ocorre hoje no Sara Ocidental. Ainda hoje existe uma ocupaçom militar lá, e negam o seu direito de autodeterminação. Semelha que muitos políticos do Estado espanhol ficam preocupados pola situaçom que se vive lá. O curioso é que, embora a situação é muito mais suave, na Galiza estão a obviar-se direitos similares. Diria também que se estão a negar rotundamente. É um detalhe a termos em consideração o facto de ficarem preocupados por um direito de autodeterminação doutro país e nem sequer terem em conta esse mesmo direito aos povos que formam o Estado. Duas formas de reaccionarem perante uma petição similar.

Certo é que na Galiza não adoitamos ter problemas de ocupação militar e similares -com o perdão dos militantes independentistas detidos-, excepto acaso quando existe oposição visível às forças de segurança do Estado, como foi no caso do dia das Forças Armadas espanholas. É nesses casos, quando alguém oferecer resistência à forma de ver as cousas que tém os espanholistas, quando a mão negra se torna visível e actua.

Acaso o fio dos meus pensamentos padeça umha certa desordem, mas às vezes é melhor soltarmos as cousas enquanto virem, para não esquecermos algumha das ideias.

A síntese do que quero dizer é que no Estado espanhol os que discrepamos deste regime podemos viver tranqüilos, até questionarmos abertamente os pilares do Estado. Aí começam os problemas. E digo eu: Que tipo de liberdade é essa na que há temas proibidos, na que há factos inquestionáveis, inamovíveis? Que tipo de regime democrático é aquele que nega um dos direitos fundamentais, como é a autodeterminação, a um dos seus territórios, enquanto advoga por este direito num território alheio? Eu não o chamaria deste jeito, mas hipócrita. É o único adjectivo coerente que me vem à cabeça. Semelha aquele homem que fala dos direitos da mulher e tem na casa a uma escrava por dona. Pura hipocrisia.

E será certo, afinal, que temos os políticos que nos merecemos? Se merecemos isto, já tivo que ser catastrófico o que fizo que assim seja...

Quinta-feira, Junho 02, 2005

Televisão Popular

Res Publica = "Cousa do povo". Nesse caso, algo público é algo do povo. Por que, então, temos que aturar uma televisão pública de Galicia, mas não dos galegos, que é apenas tribuna do Partido do governo da CAG? Eu não me sinto representado nesse lixo no que se converteu a telegaita, na que a todas horas podes ver futebol, Luar, propaganda do PP ou todas a um tempo. É, sabêndomos isto, uma televisão pública? NÃO. É mais uma das conseqüências do caciquismo dos filhos do franquismo que ainda hoje nos governam.

Não passam três segundos de informativo e já fazem propaganda institucional. Desta vez que o olhei, o macaco do presentador falava de um descenso do paro (ha!), melhor que o ano passado (ha!!) e que estes dados podem ser considerados os melhores da História da Galiza (haa!!!). Aguarda que atopo as costelas, que me caírom por mor do riso... Por que não falam de que esse emprego criado é ridiculamente precário? Por que nunca falam de que os novos temos de emigrar cada ano? Por que não de que as concessões a empresas privadas são sempre a amiguíssimos, familiares, colegas...? Por que não comentarem que o Plano Galiza -Plan Galicia para os oficialistas- foi apenas uma caralhada assinada para fechar bocas e calar vozes? Por que não que o sistema de solucionar as cousas é a golpe de talonário e não com soluções reais?

Quero uma televisão que me represente, não que me faga de porta-voz do sentir, já não Popular, mas populista. Que nos represente a todos, sem distinção de cor política. E quero também uma classe política que tire da gente o nojo que lhe tem. É impossível que o Fraga poda perder umas eleições quando os votantes são empressários que votam pensando no peto e velhinhos fazendo umha grotesca emulação dos passeios da guerra civil e da posguerra quando os levam com o voto preparado. Informados, dizem os vivos estes que estão. Coaccionados, enganados ou comprados diria eu. Se não, não se explica que ano após ano o país esteja mais empobrecido, a emigração seja maior e o uso do galego -esse idioma dos mais que votam a Fraga- esteja a se converter nalgo mais litúrgico do que real. Dentro duns anos o galego na Galiza poderia chegar a ser um Euscara se não for polo país vizinho. Ainda que claro, todo pode cambiar. Só resta que seja o povo quem queira o câmbio. Há que botá-los.

Domingo, Maio 29, 2005

Circo

"Ninguém nos ensinou a sermos demócratas". Evidentemente, já que não o sois e a estas alturas não apreendistes o conto.

Sir Francis Vázquez, como é chamado nalguns círculos -mas circos-, alcaide da Corunha, presidente da Federação de Municípios da Espanha, senador -ainda não apresentou rem-, entre outras ocupações menos legais, como requalificações para benefício próprio ou de pessoal ligado a ele, trouxo à nossa terra o desfile das Forças Armadas. Isto significa duas cousas:

Aquém, o grande sentimento espanholista que tem na cabeça. A praça de Maria Pita não pode estar mais rojigualda estes dias. O desfile é a demonstração do poder militar espanhol, interpretado por alguns como o equivalente a forças de ocupação. De nada servem protestas pacifistas da mocidade e da cultura, por dar dous exemplos.

Além, o profundo despreço que tem polos seus próprios fregueses, já que mais que cidadãos, às vezes os corunheses semelham borregos que repitem o que diz o governante, sem se questionarem nada, ignorando totalmente factos demonstrados de corrupção e incompetência. Como fregueses crendo num deus que não podem ver. O Paco Vasques despreça todos eles, fazendo um investimento grandioso para pôr a cidade sob estado policial, enquanto as forças de ocupação se mantém na vila. Estes dias não podes fazer nada sem topares polícia do Estado, todos com olhar equino e furioso, aparentando dar-che umha labaçada à mínima mostra de pensamento non-grato para o Estado espanhol. A sua prepotência é manifesta, calmada acaso polo espanholismo que se coze na cidade da Torre.

Não é certo que na Corunha haja um movimento progressista considerável. Há militância, convencida e activa, mas são os menos. A população é a que vota ao Vasques e dá-lhe o poder de fazer o que quiger. Ela é quem acode em massa para olhar com os olhos bem abertos a parafernália na zona da Torre de Hércules, convertendo em panem et circenses exibições de potencial militar usado para manter a unidade da pátria. Eu pergunto: se o exército é para nos defender de ataques exteriores, qual é o senso de um quartel no puto centro da Corunha?? Porque o quartel das Atochas leva desde tempos imemoriais, ocupando uns terreios agora reclamados para uso público. Aliás, mantém-se na Corunha ruas e estátuas com nomes dos artífices do levantamento militar do 36, da guerra civil, da posguerra, da ditadura... Indignante é termos praça de Millán Astray, rua da Divisão Azul, viaducto del Generalísimo, todos símbolos da vitória -porque nunca houvo paz após a guerra- dos sublevados contra a República.

Esta cidade, sempre bastião republicano durante a segunda república, também do galeguismo com os movimentos culturais... converteu-se numha cidade cheia de pretensões, umha cidade que sempre quixo ser Madrid com um folclore diferente, galleguiños eles. Hoje podes topar montes de gente na cidade com apelidos, já não galegos, mas galeguíssimos, e a gente renega do que é e vê o galego como síntoma de atrasso, variedade cultural folclórica, e cousas polo estilo. Tenho de escuitar muitas vezes comentários do tipo "Ese es de la aldea", quer porque o indivíduo tiver sotaque galego, quer porque fala em galego. Porém, em geral, os corunheses tém um sotaque galego inconfundível, como se pode olhar quando fala o senhor Vasques. Essa é a ironia do espanholismo e do antigaleguismo dos corunheses: querem ser o que não são, pura pretensão. Pretendem ser cada dia mais importantes, enchindo-se o bandulho de orgulho patriótico. De facto, tenho um jornal no que se fala da Ciudad-Estado de La Coruña, acadando o colmo dos ridículos.

O Vasques também é símbolo do machismo e homofobia ainda presentes nas mentes mais conservadoras. Semelham -para eles- cidadãos de segunda, sem os mesmos direitos, sem a mesma consideração. Apenas se compreende um motivo polo que um partido pretendidamente progressista como o PSOE mantém a um espécimen como ele: é e será alcaide duma das cidades mais importantes da Galiza. Se o Vasques marchar, o eleitorado corunhês -os borreguinhos dos que falava- marcharão com ele, quitando força a essa indefinição que é o PSOE.

Ia estar nalguma das concentrações que terão lugar hoje -de facto, a esta hora já começarom algumhas-, mas o cansaço acumulado de ontem e o nojo que me dá todo isto fizerom-me cambiar de opinião. Tenho à avó a ver polo televisor o que ocorre, e a impressom que dá todo o conglomerado de autoridades no palco é a dos notáveis do regime numa das suas colónias. Ainda que já sabemos que em certos sítios sempre há mais fraguistas do que o Fraga, mais franquistas do que o Franco e mais papistas do que o Papa. Os corunheses e os que se desprazarom até cá respondem, provavelmente, a essa descrição. Não se decatam de que toda esta ostentação é pagada por todos, não é algo que saia grátis a ninguém. Supõe um gasto inecessário de combustível, de média informativos... Pura propaganda institucional pagada com o dinheiro de todos, os que se sintem espanhóis e, naturalmente, os que não.

Hoje teremos que aturar, mais um dia, os ruidos causados pola maquinária do órgão militar do Estado. Que se vaiam!

Quinta-feira, Maio 12, 2005

Herdeiros da Cruz

Não queria comentar isto. O que queria era ignorá-lo, passar olimpicamente do tema. Mas há uma cousa que tenho que dizer, assim que farei o esforço e falarei disso.

Os Príncipes do Reino da Espanha aguardam um herdeiro. Até aqui nada especial, já que todas as mulheres das casas reais europeias -as únicas que restam, practicamente- semelham ter-se posto de acordo para ficarem prenhadas. Menudo panorama. Já temos um herdeiro da cruz asegurado, que continue a tradição monárquica recuperada pola Transição. De caralho.

Os média a nível estatal, especialmente a televisão pública, derom mais importância a este facto que à festa que rememora a derrota do nazismo há hoje sessenta anos. Incrível. Isto amosa o tipo de educação que dá FalsiMédia, como muitos começam a chamá-los.

Outra pergunta ronda as nossas cabeças. O chefe do Estado espanhol, João Carlos, teria que ter participado na celebraçãm feita em Rússia, como o nosso representante e junto ao chefe do Governo. Sabedes onde estava? Vendo ao vivo ao moço que se convertiu no passatempo por excelência da populaçom: Fernando Alonso. O rei, o chefe do Estado, estava a ver a um piloto em trocos de fazer o trabalho para o que se supõe que está.

Qual é o sentido da existência duma monarquia? Como se pode falar de igualdade civil quando ninguém, excepto alguns eligidos, pode aceder à chefatura do Estado? Como alguém pode exigir à população austeridade quando o seu chefe de Estado leva uma vida de luxo? Mais importante ainda: por que eu não podo ser chefe do Estado?

Factos como os que acontecem fazem-nos plantejar cousas tam básicas como é o modelo de estado que queremos e que necessitamos. Os média falam sempre a favor da Monarquia. É um facto incuestionável, inamovível, intocável.

É curioso como no Estado espanhol conseguirom impor uma visão do Estado através de cousas tam nímias como as moedas. Alguém reparou alguma vez nas moedas de curso legal espanholas? As de menor rango, de cobre, mui pobres elas, sempre cheias de ferrugem. O que podemos observar num dos lados? A catedral de Santiago de Compostela, obra cúmio da arquitectura na Galiza no período románico, e centro de peregrinação do cristianismo mundial. Esta é a religião oficial, ainda que se fagam mínimos câmbios. As de rango médio, amarelas e atractivas à vista e ao tacto. Num lado podemos ver a face do Miguel de Cervantes Saavedra, máximo exponente da literatura em castelhano. Exactamente, castelhano, a única língua que a Constituição obriga a aprendermos. A língua oficial do Estado. As de rango alto, com duas bandas de cores distintas, pesadas e grossas. Numa das bandas está o rosto de João Carlos I, rei da Espanha e representante da monarquia, única forma de estado admisível polas oligarquias. Com algo tão absurdo como são as moedas já temos estabelecidos os Três Pilares Fundamentais do Estado Espanhol.

E que não che entre na cabeça questionares algum destes valores tradicionais. Já vemos os problemas que tem o Joan Puigcercós, porta-voz da Esquerra Republicana de Catalunya no Parlamento, reivindicando o seu direito a usar a língua de seu na câmara de todos. Ou mesmo o portador do talante por antonomásia, o senhor ZetaPê, com a sua ideia de separar paulatina e timidamente a Igreja do Estado. Já vemos os problemas que tem o hominho para sequer fazer uma pequeninha reforma. E mesmo os grupos que pretendem abertamente cambiarem a forma de Estado pola via pacífica são qualificados polos grupos oligarcas como separatistas e radicais, todos estes apelativos válidos, mas usados de forma despectiva e com claro afão destructivo. Todo aquele que questionar os Tres Pilares corre perigo de ser destroçado publicamente.

Chegados a este ponto, e para rematar, quero propor três perguntas:
Há liberdade de expresão no Estado espanhol?
Respeitam-se os direitos fundamentais como o direito de autodeterminação?
Realmente se pretende conseguir a separação entre Igreja e Estado?